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Abruzzo: O Coração Verde de Itália

Vivo no Abruzzo e considero-me uma pessoa de sorte por isso.

Esta região tem a capacidade de oferecer algo diferente a cada pessoa. Ao longo da costa adriática, encontra-se a vida balnear italiana clássica — clubes de praia, hotéis, longos almoços junto à água, aquele tipo de verão que se estende preguiçosamente até à noite. É alegre e familiar, e as pessoas adoram-no exatamente por isso.

Mas quando te afastas para o interior, a paisagem muda completamente. Vales e rios serpenteiam pelo território, tranquilos e sem pressa, perfeitos para quem prefere férias com um pouco mais de aventura e um pouco menos de barulho.

E depois há as montanhas. O Gran Sasso, a Majella, o Sirente. No verão oferecem ar fresco e pastagens verdes; no inverno, neve e silêncio. Espalhados por estas terras altas encontram-se castelos medievais, aldeias antigas — borghi — e festivais locais celebrados há séculos. A história aqui não é algo que visitas — é algo em que tropeças, quase por acaso.

O Abruzzo é frequentemente chamado de coração verde de Itália. Acho que o que as pessoas realmente querem dizer é que ainda parece autêntico. Sem pressas. Um lugar onde há sempre algo inesperado à espera, se estiveres disposto a procurá-lo.

É sobre isso que eu escrevo.

Vale do Val di Sangro com vista para o Adriático, Abruzzo
O Val di Sangro, olhando para leste. Em dias claros consegue-se ver o Adriático daqui.

A Província de Chieti: Onde as Montanhas Encontram o Mar

Se tivesse de descrever a província de Chieti numa imagem, seria esta: estar no topo de uma colina no Val di Sangro, olhar para leste e ver o Adriático a brilhar no horizonte.

Ao longo da costa, os trabocchi são a imagem de marca — antigas estruturas de pesca de madeira construídas sobre estacas no mar, agora famosas muito além das fronteiras de Itália. O percurso ciclável dedicado que acompanha esta costa tornou-se um dos passeios mais bonitos do país, com vistas sobre o mar que te deixam parado. E mesmo a sul de Lanciano, a reserva natural de Punta Aderci protege um dos últimos troços selvagens da costa adriática — sem clubes de praia, apenas dunas, matagal e água cristalina.

Mas se conduzires para o interior, a paisagem muda por completo. Aqui as montanhas parecem deslizar suavemente em direção ao mar, e o Val di Sangro abre-se como um segredo. É aqui que encontras Roccascalegna, uma aldeia medieval construída em torno de um castelo dramaticamente pousado numa parede rochosa vertical — um daqueles lugares que parece quase demasiado cinematográfico para ser real. Perto, Montelapiano é uma joia escondida com uma escadaria colorida e vistas panorâmicas sobre o vale do Sangro. Archi, conhecida como a Terrazza sul Sangro, oferece miradouros sobre todo o vale — e em dias claros também se consegue ver a costa. Casoli merece uma paragem pelo seu castelo medieval e os lagos próximos de Serranella e Sant'Angelo.

E depois, mais acima no vale, está Buonanotte.

Costa de Vasto vista de cima, Mar Adriático
A costa perto de Vasto, vista de cima.
Um trabocco sobre estacas no Adriático perto de Vasto
Um dos trabocchi ao longo do caminho da costa perto de Vasto.

Buonanotte: Uma Aldeia que Escolheu o Silêncio

Mais acima no vale do Val di Sangro, encontra-se Buonanotte. Não aparece em nenhum mapa turístico importante. Não é fácil de encontrar. E isso, de certa forma, é exatamente o objetivo.

Buonanotte foi abandonada ao longo do século XX, levada ao fim por uma combinação de eventos naturais — deslizamentos de terra, instabilidade sísmica, a lenta erosão da encosta por baixo — que tornaram a aldeia inabitável. As pessoas foram saindo, família a família, até não haver mais ninguém para partir.

Chegar lá exige algum compromisso. Se estiveres a conduzir de Roma, conta com um dia inteiro — a viagem faz parte da experiência. Um carro é essencial; não existe praticamente transporte público.

Porque quando chegas, algo muda.

O silêncio é a primeira coisa que notas. Não exatamente a ausência de som, mas uma qualidade particular de quietude que parece merecida. Paredes ainda de pé, meio engolidas pela vegetação. Vãos de portas que se abrem para o nada. A igreja antiga, ainda reconhecível, mantendo a sua forma contra o tempo. O castelo acima — visível, mas já não acessível, reclamado pela encosta.

Alguém deixou um rádio a tocar algures na aldeia. Ainda não tenho a certeza se isso torna o lugar menos solitário ou mais.

Escadaria de pedra subindo pelas ruas abandonadas de Buonanotte, paredes cobertas de hera de ambos os lados
As ruas estreitas de Buonanotte. Ainda de pé, ainda reconhecíveis.

O que torna Buonanotte genuinamente surpreendente são as instalações de arte contemporânea espalhadas pelas ruínas — esculturas e intervenções que não lutam contra a arquitetura, mas parecem crescer dela, como se sempre tivessem pertencido ali. Elas acrescentam outra camada a um lugar que já tem muito para dizer.

Um cartão da exposição de arte Buona Contemporanea preso numa parede de pedra antiga em Buonanotte
Paredes ainda de pé, meio engolidas pela vegetação. O vale lá em baixo. A costa algures no horizonte.

Ao caminhar por Buonanotte, apanhas-te a imaginar a vida que ali existiu. As vozes, o fumo das chaminés, as crianças nas ruas estreitas. A aldeia não te pede que a lamentes. Apenas te convida a lembrar que ali viveram pessoas, de forma plena e completa, e que os vestígios que deixaram ainda valem a subida.

Uma parede de pedra em ruínas em Buonanotte, a vegetação a reclamar as ruínas, o vale do Val di Sangro visível lá em baixo
Uma das intervenções artísticas — um cartão da exposição Buona Contemporanea, preso numa parede que se mantém de pé há séculos.
Água cristalina do Adriático e rochas perto de Vasto
A água cristalina perto de Vasto. Reserva natural de Punta Aderci nas proximidades.
Trabocco em pormenor em Vasto, estrutura de madeira sobre o mar
Um trabocco em pormenor. Antigas estruturas de pesca, hoje icónicas.

Como Chegar

O ponto de entrada mais conveniente para esta parte do Abruzzo é o Aeroporto de Pescara (PSR), o único aeroporto internacional da região. O aluguer de automóveis está disponível diretamente no aeroporto — e para esta viagem, um carro não é opcional. Assim que sais das estradas principais, o transporte público simplesmente não chega a estas aldeias.

De Pescara, Montebello sul Sangro fica a cerca de 80 km por estrada, aproximadamente uma hora de carro. O percurso leva-te para o interior através do Val di Sangro, e a paisagem muda visivelmente — a costa dá lugar a colinas, as colinas dão lugar ao vale.

Se vieres de Roma, a autoestrada A25 liga as duas cidades, uma viagem de cerca de 150 quilómetros. A partir daí, segue para sul em direção ao Val di Sangro.

Quando chegares a Montebello sul Sangro, segue a estrada que sobe. É estreita, parece mais longa do que no mapa e em determinado momento vais provavelmente questionar se tomaste o caminho errado. Não tomaste. Continua.

Uma dica prática: Lanciano ou Vasto, ambas cidades maiores na costa adriática, são boas bases. Oferecem uma variedade de alojamento e estão a uma curta distância tanto da costa como dos vales interiores — útil se quiseres combinar Buonanotte com um dia na praia ou ao longo do percurso ciclável dos trabocchi.

Onde Ficar

O alojamento nesta parte do Abruzzo tende a ser pequeno, pessoal e longe da experiência de cadeia hoteleira — que é exatamente o objetivo.

Se quiseres ficar perto de Buonanotte mantendo um pé na costa, procura um B&B ou agriturismo na zona entre o Adriático e o vale do Val di Sangro. Geographicamente é uma distância surpreendentemente curta, mas parece dois mundos diferentes. Ficar algures no meio permite-te mover-te livremente entre ambos — uma manhã nas ruínas, uma tarde junto ao mar.

Para quem prefere uma base numa cidade maior, Vasto é a minha recomendação pessoal. A zona moderna junto ao mar tem tudo o que se espera de um resort de verão adriático. Mas sobe até Vasto Alto, a cidade antiga no topo da colina, e a atmosfera muda completamente — terraços com vista para a costa, ruas de pedra, aquele tipo de vistas que te fazem pensar na Costa Amalfitana sem as multidões nem os preços. É um daqueles lugares que te surpreende.

Encontra alojamento perto de Vasto & do Val di Sangro

Porquê o Abruzzo

O Abruzzo é um daqueles lugares que ainda não foi descoberto — não realmente. E aqueles que o descobriram tendem a manter-se em silêncio, talvez na esperança de que continue assim um pouco mais de tempo.

Tem algo para todos, sem forçar. Casais que querem tranquilidade e beleza. Famílias que precisam de espaço e variedade. Aventureiros atraídos por trilhos, rios e paisagens abertas. Viajantes lentos que querem sentar-se num lugar bonito e simplesmente existir por algum tempo. O Abruzzo acomoda todos eles, sem nunca parecer sobrelotado.

A gastronomia merece uma menção — não porque vou listar pratos e restaurantes, mas porque vais comer bem aqui. De forma consistente, sem pretensões e sem gastar uma fortuna.

O que nos leva ao último ponto: o Abruzzo continua genuinamente acessível. Bom alojamento, boa comida, praias extensas, trilhos de montanha vazios, aldeias medievais sem fila na entrada.

Vem antes que toda a gente descubra.